SONHOS E ESPERANÇAS

São Paulo, 16 de março de 2008. São 9h da manhã quando Héber Leonardo Linhares Nunes, 25 anos, acorda com um choro que vêm do quarto ao lado. É seu filho de um ano que reclama das fraldas molhadas e da barriga vazia. Héber se levanta com a preguiça característica de um domingo de manhã, mas não reclama, afinal, é um dos poucos momentos em que pode dar atenção ao pequeno Lucas.

Casado há quatro com Sarah Lima, 23 anos, vive a vida típica do trabalhador brasileiro. De segunda à sexta, das 8h às 18h, trabalha como técnico de informática numa empresa no município de São Bernardo do Campo. Leva 2 horas para fazer o trajeto de sua casa, no bairro do Jaguaré, até o escritório. E as mesmas duas horas para voltar para casa.

Evangélico, encontra na igreja refúgio para seus problemas e esperança para os seus sonhos. E foi justamente voltando de um dos cultos, mais tarde neste mesmo dia, que seus sonhos foram transformados em história.

Depois de um dia em família, Héber se prepara para tocar sua bateria no culto que começará em breve na modesta igreja evangélica em Santo Amaro. São 18h36 quando Héber e seu cunhado Felipe Fausto, 19 anos terminam de montar o equipamento no púlpito. É um dos momentos mais esperados de seu final de semana, é quando consegue externar – por meio da música – seus sentimentos mais profundos.

O culto começa e Héber e Felipe tocam em vários momentos, até seu final, que chega às 21h. É hora de recolher o equipamento e deixar Sarah e o bebê em casa, e depois levar Karen Cristina – namorada de Felipe – para sua casa também, e no fim deixar o próprio Felipe. É justamente o que faz, e o que sela seu destino e o de sua família para sempre.

José Antônio Ripardo, 49 anos, motorista de ônibus da viação Itapemerim. 16 de março de 2008. São 20h15 quando sai de Curitiba com destino ao Rio de Janeiro. Leva consigo um ônibus carregado com 35 passageiros. Algumas horas depois, cansado por dirigir tantas horas numa rodovia ruim e cheia de perigos, José Antônio toma a decisão que muda a vida de Héber, Felipe, Sarah, Lucas, Karen…

Após deixar sua esposa Sarah e seu filho Lucas em casa, Héber pega o seu Ford Fiesta, ano 95 e se dirige ao bairro do Limão, para que Felipe possa acompanhar Karen, sua futura esposa, até a casa que divide com os pais. O plano é, na seqüência, seguir para a própria casa para por fim poder descansar antes da semana que trabalho que começará em algumas horas. É após deixar Karen em segurança que tudo muda.

Por volta das 23h, junto com seu cunhado, já bem perto de sua casa onde esposa e filho o esperam, Héber se depara com uma cena incomum. Na alça de acesso que liga a Marginal Tietê à Bandeirantes, um ônibus da viação Itapemirim vêm em sua direção, na contramão.

Já são quase 23h quando o motorista José Antônio percebe que pegou uma saída errada. Cansado, com pressa de chegar ao seu destino e sem muito refletir, faz uma manobra proibida e volta pela mesma alça de acesso que o trouxe ali. O único problema, volta na contramão, apesar de ver uma placa indicando um retorno na próxima saída a direita. Cerca de 2 minutos depois, após desviar de aproximadamente 10 carros, bate de frente com um Ford Fiesta ano 95, que levava dois rapazes de 25 e 19 anos.

Após se recuperar do susto de ter um ônibus vindo em sua direção na contramão, Héber tenta desviar, mas não consegue, chocando-se de frente com o mesmo. Não teve tempo de pensar em Sarah ou em Lucas, seus sonhos e esperanças viraram história naquele momento. Héber morreu na hora, Felipe ainda foi socorrido e chegou com vida ao hospital, mas morreu pouco tempo depois.
José Antônio, percebendo o grande erro que cometera, tenta fugir mas é impedido pelos passageiros do ônibus que atônitos, pensam em fazer justiça com as próprias mãos. Não há tempo. A polícia chega em seguida e prende José Antônio, que responderá por crimes como homicídio doloso.

17 de março de 2008, 00h15. Sarah, Lucas e Karen dormem em casa, ainda sem saber que os seus próprios sonhos e esperanças também mudaram após o dia que acaba de terminar.

Patrícia Capuchinho

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